31 de março de 2016

A MINHA GERAÇÃO E O GOLPE MILITAR

A minha geração foi das que mais sofreu, ideologicamente, com o golpe militar de 1964, não porque sofreu fisicamente os horrores da tortura física, mas pela “lavagem cerebral” escolar a que foi submetida, desde o início de sua formação.

Os da geração anterior à minha tinham certa consciência do que estava acontecendo no país, e tinham a possibilidade de se posicionar, contra ou a favor da ditadura estabelecida (ou de ficar indiferentes, que é outra maneira de ser a favor); os que vieram depois da minha geração, souberam do golpe pelos livros de História, sem que lhes fosse exigido um posicionamento específico, além daquele normal que se espera de qualquer pessoa esclarecida.

Nasci em 1963, seis meses antes do fatídico acontecimento; comecei a estudar em 1969-1970, exatamente no período mais cruel do regime autoritário, que era artificialmente colorido e disfarçado de nacionalismo (“Eu te amo, meu Brasil, eu te amo! Meu coração é verde, amarelo, branco, azul anil!”), num cínico simulacro de normalidade. A escola era o aparelho utilizado com força, nessa “domesticação”.

Guardo na memória a presença constante de soldados fardados, no Grupo Escolar Luiz Alves da Silva, pondo-nos em fila dupla indiana, diante das bandeiras, e obrigando-nos (porque ficavam alguns desses militares passando por entre os alunos, a ver se alguém não cantava, se conversava, olhava de lado ou desvirtuava a retidão da formação) a cantar os Hinos Nacional, de Pernambuco, de Santa Cruz do Capibaribe, da Independência, da Bandeira, a Caxias, além da Canção do Soldado e “Fibra de Heróis”.

Naquele tempo, acreditávamos piamente no paraíso brasileiro que nos pregavam incessantemente, e o gaúcho de olhos verdes – Emílio Garrastazu Médici – era nosso herói e modelo do que cada um queria ser, quando crescesse.

Em 1973, fui estudar na Escola Municipal Trinta e Um de Março, e a gente impava de orgulho, porque o nome do recém-inaugurado educandário – por propositura do então vereador Inocêncio Morais – era uma homenagem à “Revolução Democrática” de nove anos atrás. E até 1977, as aulas de Educação Moral e Cívica e Organização Social e Política Brasileira se encarregaram de sedimentar em nossas mentes os primores do governo militar.

Foi duro, foi muito duro para essa geração, quando começou a ter contato com a realidade. Começaram a desmoronar nossos ideais, quando fomos descobrindo que a “Revolução” não foi “democrática” coisa alguma, sequer foi revolução, mas um golpe militar num governo constitucionalmente constituído; que o general gaúcho de olhos verdes foi, na verdade, o mais sanguinário dos ditadores do período militar; que muita gente tinha sido torturada, inúmeros morreram e seus corpos sumiram e até hoje não foram sequer localizados; que foi um período de muita perseguição e descalabro, em que a liberdade de se reunir e de escrever e dizer as coisas era cerceada, e punida ferozmente...

Foi complicado para nossas cabeças forjadas pelos preceitos ditatoriais disfarçados em confeitos de ufanismo, entender a podridão que aparecia sob o florido, verde e limpo tapete sobre o qual acreditávamos viver, num mundo de justiça e paz, igual àquele sob os pés da seleção canarinha que anestesiava o país com a alegria do tricampeonato mundial de futebol.

Alguns da minha geração, ou não tiveram coragem ou não quiseram enxergar essas incômodas verdades, e preferiram continuar acreditando no que lhes fora ensinado desde a mais tenra idade; outros – e me incluo neste grupo – quiseram saber mais e mais desse período obscuro da História, ao mesmo tempo tão perto e tão distante de nós, e a cada livro, reportagem ou filme com que tínhamos contato, mais nos revoltávamos contra a tortura mental (indolor mas eficaz) a que fomos submetidos, durante tantos anos.

Entretanto, mesmo percebendo essas verdades, e desejando assumir outro posicionamento, a eficácia da “lavagem” escolar era incontestável, e nos víamos (nos vemos ainda) divididos, muitas vezes, diante de situações que colocam em xeque o que aprendemos na massificação da escola, e o que descobrimos, nas posteriores leituras.

Sofremos muito ainda hoje com isso, pois que não deixa de ser esquisito sentirmos vergonha de algo a que antes tínhamos verdadeira admiração. Sinto enorme vergonha de ter sentido orgulho do nome da Escola Trinta e Um de Março, e que foi um lugar importantíssimo para minha formação como gente – percebem a dualidade, o conflito interior? É prato feito para qualquer psicólogo ou psiquiatra! Ainda bem que foram sensatos, e mudaram o nome para Escola Padre Zuzinha – se bem que o padre foi também prefeito (e por duas vezes) pelo partido que apoiava a ditadura, a ARENA, cinicamente chamada de Aliança Renovadora Nacional... Difícil, estou dizendo!


Parar por aqui, que isso tem fim nunca. Apenas lamentar, como faço a cada final de março, há muitos anos, por esta data nefasta, que nem verdadeira é, já que o golpe se consumou, de verdade, na madrugada do dia seguinte, 1º de abril – uma data bem pouco séria para um golpe militar, convenhamos! Que os insanos que clamam pela volta dos militares ao poder tenham crestados todos e cada um dos neurônios que os fazem vomitar baboseira tão grande, leseira tão sem sentido!

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