7 de abril de 2016

ÂNSIA DE ONIPRESENÇA

ÂNSIA DE ONIPRESENÇA

Edson Tavares

Uma antiga canção servia-me de mote na adolescência, terminando por imprimir, em mim, uma de minhas características mais visíveis. Dizia: “Eu não posso parar: se eu parar, eu penso; se eu pensar, eu choro.”

Naturalmente, o porquê de eu não parar não estava relacionado ao pensar e ao chorar, mas, desde cedo, habituei-me – diria melhor, viciei-me – ao corre-corre. Tinha (e ainda tenho) um medo danado de ficar parado. Medo de não dar tempo de fazer tudo que tenho vontade. Medo de a vida ser muito curta para o muito que pretendo ainda realizar. Sensação estranha de, parando, poder estar estragando preciosas oportunidades de estar produzindo algo.

Por isso, a mania de realizar várias coisas ao mesmo tempo. A mescla de tantos afazeres, apesar do cansaço que representava, finda por ajudar, reciprocamente, esses afazeres. Não raro, ao tratar de algo, tenho relevantes ideias para coisas novas ou para incrementar outra empresa paralela; constantemente busco em um trabalho subsídio para outro, e assim vai...

Por certo que isso tem seu preço, que se traduz na pouca disponibilidade de tempo para descansar, na troca de horas de sono por horas na frente do computador ou diante de um livro, na intolerância da diferença de ritmo de meus companheiros. E até em termos de saúde há uma consequência: o estresse, a mais evidente.

Reverto o velho conceito bíblico de que “tudo tem seu tempo e sua hora”. Procuro eu mesmo, desafiadoramente, construir meu tempo, raramente esperando pelo Tempo. Às vezes isso me faz comer a fruta ainda verde, experimentando-lhe o acre gosto do que não amadureceu o bastante.

Amigos são poucos os que compreendem este meu comportamento; menor ainda o número dos que, compreendendo, ainda arriscam uma convivência comigo. Um deles, o Álvaro de Campos: “Sinto na minha cabeça a velocidade de giro da terra, / E todos os países e todas as pessoas giram dentro de mim, / Centrífuga ânsia, raiva de ir por os ares até aos astros / Bate pancadas de encontro ao interior do meu crânio, / Põe-me alfinetes vendados por toda a consciência do meu corpo, / Faz-me levantar-me mil vezes e dirigir-me para o Abstrato, / Para inencontrável, ali sem restrições nenhumas, / A meta invisível – todos os pontos onde eu não estou – e ao mesmo tempo...”

É essa ânsia de onipresença que, mesmo me dando aparência neurótica, move-me, prova-me que estou vivo, coloca à prova minha relação com o mundo sensível, dá-me a certeza de que a vida corre em minhas veias.

Medo da morte? – indagam-me. Não, retruco: medo de sentir-me morrer com excesso de coisas a fazer – sensação horrível de tempo perdido, desperdiçado. Pavor da invalidez, morte antecipada.


0 comentários:

Postar um comentário