19 de abril de 2016

TOTONHO

Edson Tavares

Por volta do final dos anos 60, começo dos 70, nos velhos tempos das malas da Rua Grande, formadas e frequentadas por gente simples, que, após o cansativo dia de trabalho, juntava-se para atualizar as novidades, fazer prognósticos políticos, comentar o cotidiano da cidade, Santa Cruz do Capibaribe respirava tranquilidade.

Fui, muitas vezes, levado por meu pai, a esses encontros noturnos diários; o mais concorrido acontecia cedo da noite, na loja de Braz de Lira, na hoje Av. Padre Zuzinha. Eu ficava calado toda a noite, somente acompanhando aquelas infindáveis conversas, através das quais me chegava a opinião de santacruzenses sobre sua cidade, que também era a minha cidade. Quanto aprendia naquelas palestras informais! Além de meu pai, João Firmino, lembro de Alonso (nosso vizinho da João Balbino), João de Valdemar Lins, Lucas e Biu Chagas (cambistas de jogo de bicho, como meu pai), Antonio Guarda, entre tantos outros, cujas faces estão na minha memória, mas os nomes já não mais.

Em intervalos da conversa, o pessoal encarnava no meu silêncio. Braz de Lira, que seria prefeito da cidade, dizia que eu era apoucado, pois não falava de jeito nenhum. Totonho, o gerente da loja, ficava me provocando a fala ou o riso, beliscando-me os braços e a barriga, numa infrutífera tentativa de me arrancar da minha pesada timidez. Só paravam de me provocar quando outro assunto palpitante surgia, e a conversa rolava.

Totonho fora Presidente do Ypiranga, naqueles tempos em que o conheci. Tinha um Aero-Willys preto, enfeitado com um bicho selvagem, de pelúcia – acho que uma onça – no vidro traseiro do veículo. Eu ficava babando para andar naquele carro, que me parecia tão confortável – desejo de menino de sete ou oito anos, jamais realizado.

Ele era pai de Marcos, que estudara comigo, desde os tempos do Grupo Escolar Luiz Alves da Silva, e que fora aluno de minha mãe também. Éramos amigos de conversar e estudar junto, dos recreios do Luiz Alves, depois do Trinta e Um. Neto, irmão mais velho de Marcos, bastante simpático com os mais novos, também ficou guardado na minha lembrança de menino.

O tempo passou, cresci, saí de Santa Cruz do Capibaribe... Meu pai faleceu, minha mãe também, e aqueles momentos de diversão e as noites de aprendizagem informal ficaram para sempre sepultadas no fundo da minha saudade. Nunca mais vi Totonho ou qualquer dos companheiros de mala.

Até que, certo dia, cerca de três anos atrás, estava eu numa lanchonete, na Praça do Governo, em Caruaru, quando me aparece um senhor, de cabelos brancos, acompanhado de um jovem. Quando lhe ouvi a voz, ao se dirigir à atendente, minha cabeça recuou quarenta e tantos anos no tempo, e reconheci, de imediato, o jeito de falar, o timbre de Totonho.

Precisei de certo esforço para vencer a ainda renitente timidez, mas interpelei-o, confirmando ser quem eu já tinha certeza de quem era; ao me identificar, ele riu aquela risada do passado e lembrou automaticamente, do meu apoucamento e das estratégias que fazia para que eu demonstrasse alguma reação que fosse. Apresentou-me ao neto, que o acompanhava, contando algumas peripécias daquele tempo. Lamentou ao saber que meus pais já haviam falecido, falou de seu problema cardíaco, trocamos mais algumas palavras e nos despedimos, num efusivo abraço, com quatro décadas de atraso.

Soube do seu falecimento. O coração finalmente o matou. E, com ele, morre mais um pedaço antigo de minha infância. É como se a vida passada, que compõe o que sou, no presente, fosse se esvaindo, a cada nova ausência, a cada nova lacuna que se abre. E vou me morrendo, assim, aos poucos.


Salve, querido Totonho! Perdão se não lhe fiz uma elegia mais adulta: a criança foi mais forte em mim...

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