19 de maio de 2016

AQUI, AS QUINTAS

Ontem Caruaru fez aniversário (meio polêmico, é verdade, não é Walmiré, mas, enfim...). Ante tantas e tantas mensagens bonitas, tocantes, também quis registrar este momento, contando onde a História de Caruaru se mistura com a minha.

A cidade chegou em mim primeiro pelos ouvidos, através do rádio. Nos carrascais de Santa Cruz do Capibaribe, eu-criança adolescia ao som da Difusora, da Cultura e da Liberdade. Meu imaginário construía uma Caruaru mágica, alimentada pelo que ouvia todos os dias, no velho “Vozzo” elétrico lá de casa, e confirmada quando meu pai me levava para viagens que fazia a Caruaru, a compras.

Então, logo que me achei feito gente, e que meu pai, à custa de muitos rogos e promessas de que eu me cuidaria, permitiu, comecei a viajar sozinho. A felicidade se estampava em mim uma semana antes da viagem, cuidadosamente planejada. Quando finalmente descia do ônibus, no Sertanejo, um cheiro novo, diferente, me invadia. Cheiro de Caruaru.
Batia perna, rua acima, rua abaixo: visitava as rádios, conhecia os locutores, operadores de som e discotecários, que até então sabia só de voz e nome; depois, programa obrigatório: subir o Monte Bom Jesus, sentir na cara o vento de Caruaru, a carícia de Caruaru no meu corpo, e sonhar, sentado numa das pedras, sonhar que, um dia, eu me mudaria de vez para aquela cidade-paraíso.

Foi no dia 30 de setembro de 1980 (fizera 17 anos no início desse mês), lembro-me nitidamente, no dia seguinte ao da Festa de São Miguel, ônibus superlotado, viajei em pé durante todo o percurso, com uma mala rala e minha máquina de escrever Sperry Remington. Eu chegava, finalmente, para morar em Caruaru. Sozinho, trabalhando e estudando, residi em hospedarias nos Guararapes e depois no Sertanejo. Coração cinquentão ainda dispara quando relembro isso tudo...

O escritório de contabilidade, a Fafica, os Grupos Jovens, a Casa da Poesia, os colégios, o DERE, a família (a que veio de Santa Cruz, dois anos depois, e a que construí), os alunos, os amigos... Caruaru preencheu-me inteiro. Até as tristezas, que não foram poucas, ficavam mais suportáveis. O Monte foi meu bálsamo durante os anos que vivi Caruaru. Respirei felicidade em Caruaru.

Ainda agora, em outras plagas, confirmo a frase sábia de Anastácio Rodrigues: mesmo distante, o caruaruense não consegue cortar o cordão umbilical com sua terra; há quase década e meia em Campina Grande, não fico duas semanas sem atravessar a divisa. Tanto quanto na infância, Caruaru ainda é meu oxigênio, o ar de que preciso para soprar as 159 velinhas que simbolizam sua existência.


Parabéns, Caruaru! Obrigado pelo homem que forjou em mim.

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