31 de outubro de 2016

FARRA EM MARIA BOA

Em Natal havia um ponto frequentadíssimo pelos marmanjos. Era a pensão de Maria Boa, uma paraibana egressa de Campina Grande, que sentou praça na antiga Terra do Jerimum durante a Segunda Guerra Mundial. A casa atravessou décadas. Era lá que, segundo dizem, o escritor e folclorista Luís da Câmara Cascudo baixava de vez em quando para tomar umas e outras, saborear um galeto e conversar sobre literatura. Ou não. 

Foi onde certa vez o veterano cronista esportivo Amaury Veloso, abstêmio de carteirinha, foi bater, acompanhando a farra de um grupo de jogadores do Sport. O conhecido jornalista tinha ido a Natal cobrir para o Diário de Pernambuco um jogo do Leão, na época, dirigido por Gentil Cardoso, quando da segunda passagem do Velho Marinheiro pela Ilha do Retiro, na década de 60. O Sport ganhou a partida, disputada num domingo, e depois do jantar, o técnico, como sempre acontece, liberou os jogadores para darem uma voltinha, com horário estabelecido para a apresentação no hotel: 23 horas.

A patota que Amaury acompanhou era formada pelo meia Paulo Choco, que depois defenderia o Náutico; Jarbas, volante; e Renato, centroavante. O táxi que levou o quarteto adentrou um terreno onde estava situado o ambiente diversional que tanto sucesso fazia na capital potiguar. Lá dentro, um batalhão de damas da noite trajando vestidos longos. Os rubro-negros aboletaram-se numa mesa, onde a cerveja dava no meio da canela. Logo estavam rodeados  de mulheres. E haja mé! Amaury no meio do burburinho, só cubando. Contentava-se em tomar aqui, acolá, um gole de refrigerante, pois nunca bebeu nem fumou.

Por volta das 22h, um carro chegava ao local. Dele, saltava Gentil Cardoso, guiado pela experiência, para fazer uma vistoria.

– Só fiquei eu, ao lado da mesa. Os jogadores correram para os quartos.
Logicamente, as garrafas sumiram da mesa numa velocidade de raio.
E Gentil, irônico, como sempre:

– Você é o bonitão, hein? Cheio de mulheres ao seu lado... É um privilegiado.

Claro que o matreiro Gentil sabia que não era nada daquilo que estava vendo. Para disfarçar, bateu um papo com um segurança, demorando-se uns dez minutos. Quando ele foi embora, Amaury correu para avisar à turma que o sinal estava verde. Jarbas, que era gago, meio trêmulo, esforçava-se para perguntar:

– Cadê o homem, foi embora?

Paulo Choco, por precaução, passou uma meia hora trancado. A libação alcoólica foi reiniciada, mas logo chegou a hora de retornar ao hotel. Quando chegaram, encontraram Gentil sentado na portaria, de sentinela.

– Uma boa noite, só que não me chamaram – disse aos jogadores.
Jarbas desculpou-se em nome do grupo:

– Fomos conhecer as belas praias de Natal, professor.

– Praia numa hora dessas – refutou Gentil Cardoso, àquela altura, bastante escolado pelos muitos anos de janela que tinha como técnico de futebol.

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