17 de outubro de 2016

SEU OLÁRIO CUMPRIU O DEVER

Domingo de festa em Alagoa Grande, na Paraíba. O modesto time da Sanbra (Sociedade Algodoeira do Nordeste Brasileiro) recebia para um amistoso, um dos bichos-papões da Região, mais propriamente do Campeonato das Usinas. O treinador armou uma senhora retranca e advertiu  seus jogadores:

– Vamos perder de pouco. Se conseguirmos um empate, é ótimo. Se vencermos, é a glória.

O cidadão Olário Medeiros era um bom funcionário da Sanbra. Entendia de escrita fiscal, e além de ser um exímio datilógrafo, tinha simpatia e liderança, sendo por isso o chefe do escritório.  Só não tornou-se administrador geral da Sanbra porque a Firestone trouxe-o para ser gerente de sua filial no Recife, em razão, principalmente de seu fluente inglês.

Seu Olário era isso tudo, mas como jogador de futebol, provocava gargalhadas. A bola chegava redondinha ao seu pé e saía quadrada. Com alguma boa vontade, dava para ficar no banco.

Naquele jogo, os visitantes começaram dando sufoco. O time de Alagoa Grande se defendia na base do chutão. Resistiu bravamente no primeiro tempo e segurou um empate valoroso: 0 x 0.

No intervalo, o treinador avisou que faria duas substituições. Era no tempo em que havia pontas. Estes, no caso do time de Alagoa Grande, corriam celeremente com a bola dominada, rumo à bandeira de escanteio, e tratavam de cruzar um para o outro. Quando acossados, chutavam a garota para o mato, tendo assim, um tempinho para respirar. Exigidíssimos, aos 35 minutos do segundo tempo, os dois pontas do time da casa já botavam um palmo de língua pra fora, como se diz. Foram substituídos.

Quem entrou na direita foi Seu Olário. A tática era a mesma. Os dois ponteiros teriam que ir à linha de fundo e mandar a pelota para o barulho. Aos 43 minutos, o nada habilidoso Olário recebeu a bola, e para se livrar dela, deu um chutão para frente. O chute pegou efeito, a bola fez uma curva e foi balançar a rede, depois de entrar pelo ângulo. Gol da Sanbra! Torcida em delírio, fogos, pulos, socos no ar, chapéus para cima, sirene da empresa tocando, Era o povo de Alagoa Grande em delírio.

À noite, no footing domingueiro, na realidade, um parque de diversões, Seu Olário colocou-se num ponto estratégico, de onde podia ser avistado pelas pessoas que passavam para lá e para cá. O alto-falante da praça, bradava de instante a instante:

– O time de Alagoa Grande ganhou por 1 a 0, gol de Olário.

Não faltavam abraços para o “herói”, que humilde, mas solenemente, afirmava:

– Só fiz cumprir com o meu dever.


Sem dúvida, uma noite de glória para quem havia marcado um gol no bambo! 

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