3 de novembro de 2016

AQUI, ÁS QUINTAS...POR EDSON TAVARES

Numa de nossas muitas e frutíferas discussões em sala de aula, sugeriram-me assistir ao filme “Deus não está morto”, como uma das melhores obras cinematográficas já lançadas, sobre esse assunto tão controverso. Somente agora tive tempo para fazê-lo. A conclusão a que cheguei, após as quase duas horas, diante da tv: um filme óbvio e tosco.

Óbvio pelas situações que tenta problematizar: uma garota prática, que briga com o namorado por este aceitar um desafio de provar que Deus não está morto – o típico caso do mocinho, que perde a garota, mas não perde a fé.

Outra obviedade é o professor de Filosofia, que se tornou ateu a partir do momento em que, aos 12 anos, perdeu a mãe para um câncer (e por isso diz odiar a Deus, o que se torna o gancho para o desfecho espetacular do discurso do calouro: “como odiar o que não existe?”), ou da jornalista que se descobriu com um câncer espalhado. Típico (e manjado) comportamento de quem se revolta ante as fatalidades da vida – principalmente de doenças incuráveis, diante das quais o que se tem a fazer é esperar, impotente, o seu desfecho.

O filme é uma reunião de frases feitas, de evidente efeito retórico, mas ocas de significado, disfarçadas em argumentos que se pretendem definitivos, mas que não passam de falácias, como a de achar que só pode haver moral no cristianismo, porque Deus (ou o que ele pode fazer) seria a razão de todos serem morais. É inaceitável que um descrente seja ético, porque, a princípio, não teria que dar satisfações a ninguém de seu comportamento. Ora, posso ajudar uma senhora a atravessar a rua porque acho isso correto e bom, não necessariamente para acumular créditos no livro divino da minha salvação.

É tosco o maniqueísmo evidente no roteiro: todos os que não acreditam em Deus são apresentados como trogloditas, prepotentes, grosseiros e vilões – o professor que oprime os alunos e humilha a esposa, o muçulmano que expulsa a filha de casa porque esta está lendo a Bíblia (a cena da expulsão é um dos momentos mais trash do filme, só perdendo para a que transforma Deus em mecânico de automóvel), o empresário chinês comunista que vocifera com o filho pelo telefone, a blogueira prepotente; por outro lado, todos os crentes são serenos, tranquilos, doces, legais e prestativos...

A conclusão do filme é patética: depois do discurso do garoto calouro, a turma toda, em uníssono, levanta-se e declara que “Deus não está morto”, embora algumas aulas antes, também todos, igualmente em uníssono, tivessem escrito, a pedido do professor, que “Deus está morto”, confirmando sua vocação para massa de manobra de quem tem o poder de aprovar/reprovar, ou de falar mais bonito.

E todos se convertem: a blogueira que vai entrevistar os componentes de uma banda religiosa, e que oram por ela; o professor, que, atropelado e às vésperas da morte, é instado por um crente a “aceitar Jesus”, e o faz; e mais cem mil pessoas que recebem esta mensagem pelo celular, enviada de cada participante do show apresentado pela banda religiosa.

E o filme “Deus não está morto”, não obstante o estardalhaço que provocou em seu lançamento, perde-se como oportunidade de refletir com seriedade sobre a questão da religiosidade e dos intrincados caminhos que a permeiam, transformando-se num “mero filme de louvação, daqueles que têm por objetivo também catequizar ovelhas desgarradas – leia-se chineses e muçulmanos, vítimas de um radicalismo travestido na narrativa. Pelo que representa nas entrelinhas, trata-se de um filme extremamente nocivo por alimentar preconceitos que desrespeitam o mesmo livre arbítrio que o próprio filme exalta para os cristãos”, como afirma o crítico de cinema Francisco Russo (http://www.adorocinema.com/…/filme-22…/criticas-adorocinema/).


E eu concordo!

0 comentários:

Postar um comentário