21 de novembro de 2016

O PÃO DURO BIÉ

Anos atrás, houve um atacante pernambucano, conhecido por Bié, que jogou pelo Flamengo de Teresina, onde se deu muito bem. Bom de bola e de gols, por outro lado, entrou no folclore do futebol piauiense por ter sido considerado pela imprensa e pelos companheiros de time o jogador mais “pão duro” de todo o futebol brasileiro. No seu livro Vocabulário Popular e Humor do Futebol, o ex-jogador Luizinho Bola Cheia, de Campina Grande, que jogou ao seu lado, conta que Bié possuía apenas uma calça, uma camisa e um par de chinelos velhos. Além disso, tinha um Volkswagen modelo 74, onde só entravam pessoas que pagassem uma espécie de pedágio criado por ele. Há uma música antiga no cancioneiro brasileiro, que começa assim: "Sou pão duro, vivo bem/ Não dou esmola, não faço favor nem ajudo a ninguém/ Sou pão duro, vivo bem/ Quem quiser que faça assim como eu também." Pois, Bié mais ou menos se enquadrava nesse contexto. Pois é, está no livro de Bola Cheia que Bié passava uma semana com uma única roupa no seu corpo imundo, só tirando-a quando nem ele mesmo suportava o desagradável odor. Quando lavava sua indumentária, o jogador ficava totalmente nu, esperando que o sol enxugasse seus trapos. Ídolo da torcida flamenguista piauiense, Bié andava constantemente com sua bolsa capanga totalmente cheia de dinheiro, pois não depositava os vencimentos em bancos, com medo de perder a grana. Era desconfiado por causa dos planos econômicos que apareciam, como o Plano Collor, por exemplo, que bloqueou por algum tempo as contas bancárias. Bié não podia ver um diretor do clube ou mesmo um torcedor fumando. Pedia logo o “góia”. Em 1976, o Flamengo levantou os três turnos do Campeonato Piauiense e papou o título de campeão do ano sem precisar disputá-lo com outro time. Naquela vitoriosa campanha, toda vez que o rubro-negro conquistava um turno, Bié, devidamente autorizado pela diretoria, pegava um ônibus da Princesa do Agreste e se mandava para o Recife, a fim de visitar parentes. Com o prestígio que tinha, diante do futebol que jogava, sempre obtinha licença para viajar. Sua mala vinha quase estourando, de cheia. Na bagagem, o jogador pão-duro trazia uma grande quantidade de toalhas, lençóis, fronhas, cinzeiros, paliteiros e rolos de papel higiênico. Tudo afanado dos hotéis em que a equipe do Flamengo se hospedava.

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