14 de novembro de 2016

TORCEDOR SABICHÃO

Nascido em Garanhuns, mas criado em São Bento do Una, Clávio Valença era uma dessas figuras que sabem levar a vida. Advogado de profissão e boêmio por adoção, soube, enquanto esteve no nosso mundo, viver intensamente. Numa mesa de bar, ambiente que frequentava com uma certa assiduidade, estava sempre cercado de amigos, dissecando o lado bom ou a banda podre da vida. Dotado de boa presença de espírito e de um certo sentido crítico, sempre atraía a atenção dos seus circunstantes, quer pela segurança com que contava seus casos, quer pela firmeza do timbre de voz.

Certa vez, a cidade de Campina Grande estava fervilhando, em plena véspera da decisão do Campeonato Paraibano. As duas equipes locais, Treze e Campinense haviam se classificado para lutar pela taça numa final que se prenunciava das mais empolgantes. A rivalidade entre o Galo e a Raposa, tornara-se mais acentuada naquela semana de nervosismo e expectativa.

Por acaso, Clávio Valença viu-se no centro do furacão, embora nada tivesse a ver com o entrevero entre trezeanos e raposeiros. Estava na cidade a trabalho. Encerrado seu movimento numa das varas da Justiça, resolveu molhar a garganta, sorvendo uma loura gelada. Ao entrar num bar, sentiu logo que o clima girava em torno da decisão, com torcedores dos dois times digladiando-se verbalmente. Forasteiro, não sendo nem uma coisa nem outra, Clávio ficou na dele, naquela de “eu sou feio e moro longe”. Mas não conseguiu permanecer incólume, já que terminou sendo abordado por uma das facções. Poderia dizer que era de fora e nada tinha a ver, mas para não dar pinta de que estava em cima do muro, e só por brincadeira, ao ser interrogado sobre por qual time torcia, declarou-se torcedor do Treze. A turma do Galo vibrou, e Clávio aproveitou o momento para fazer média:  

– Sou torcedor do Treze não é de hoje não. Torço desde o tempo daquele time que começava com Harry Carey, lembram-se?

Um ou outro se lembrava, mas não muito, e o vivaz Clávio Valença ao sentir a fraqueza memorial dos interlocutores, resolveu botar sua banca:

– Foi o maior time que o Treze já teve até hoje!

E de um fôlego só declinou os nomes, do goleiro ao ponta-esquerda:

– Harry Carey; Letácio e Urai; Zé Pequeno, Arrupiado e João Luís; Mário, Marinho, Elói, Ruivo e Pitota.

Com isso ganhou o respeito e a admiração dos torcedores, espantados com aquela demonstração de conhecimento das coisas trezeanas. Só faltaram carregar Flávio nos braços. Sorte do torcedor intruso é que ninguém mais puxou nem pelo passado nem pelo presente do Treze, pois ele não sabia nada além daquela escalação, decorada quando ainda era garoto em Garanhuns, numa ocasião em que o Treze foi jogar lá. Justamente para não cair em contradição ou ficar no mas, mas, mas, Clávio tratou de dar o fora saindo numa boa, como um dos maiores conhecedores da vida do Treze, antes de voltar a ser interpelado.

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