28 de dezembro de 2016

AQUI, ÀS QUINTAS...


Foi numa terça-feira que minha cidade nasceu como cidade: dia 29 de dezembro de 1953; dez anos antes de mim. Quando estreei, Santa Cruz do Capibaribe já tinha uma década de vida.

Conheci uma Santa Cruz muito diferente da atual. Era pequena. Acabava no final da Av. 29 de Dezembro, que nem era calçada ainda.

Nos dias de feira, segundas-feiras, toda a Rua Grande era tomada por um grande mercado a céuaberto. Eu gostava particularmente porque era o dia em que eu ia ver o meu avô, José Firmino, que vinha em animais de montaria, do Sítio Situação, onde morava, e se “arranchava” na sua “casa da rua”, que ficava ao lado direito da Igreja Matriz – depois a casa foi vendida ao Dr. Alexandre Gusmão, que a “engoliu”, para construir sua mansão.

Gostava daquele velho tão parecido com meu pai, de ouvir as conversas dos dois – sempre reclamando de tudo. Meu pai dava um dinheiro a ele, para ajudar nas compras, e ele me dava umas pratinhas e me deixava montar no jumento que trazia os produtos pra feira e levava os mantimentos, final do dia.

“Bença, pai!” “Deus te abençoe!” Na minha ingenuidade de menino besta, eu achava estranho, diferente e bonito meu pai pedir a bênção ao meu avô; eu pensava que isso era só as crianças que faziam. Um “homão” daquele tamanho pedindo bênção ao pai, feito menino! Oxe! Quem já viu?!

Eu gostava de “bater perna” na Santa Cruz criança. Ou andar de bicicleta, na pesada Bristol de meu pai. Cidade tranquila, naquele tempo... Eu entrava em ruas e becos, ia para o leito do rio e me mandava para São Domingos, até chegar ao Cemitério da Barra (onde minha mãe contava que foram enterrados seus pais, meus avós maternos, Teotônio e Maria, mas que uma cheia do Capibaribe levou os despojos, muitos anos atrás).

Eu saía sozinho, do Bairro Novo, perto do campo do Ypiranga, onde morava, para ver televisão na Padaria Flórida, de Antonio Saturnino, na Rua do Pátio. Eu e mais um magote de gente, que literalmente superlotava o salão da panificadora, em tamboretes, na velha balança de pesar trigo ou espalhados pelo chão, para assistir às novelas das sete, ao Jornal e à das oito; voltava para casa por volta de dez da noite.

Sinto-me morrer aos poucos, quando vou a Santa Cruz do Capibaribe, hoje. Tão diferente, tão outra! Busco ansiosamente marcos da minha infância, e não mais os encontro. Fico triste, sentado um tempo num dos bancos, embaixo de uma gameleira frondosa da Rua Grande. Ao menos ela me fala de um tempo que não mais existe. Como não mais existem meu avô nem meu pai.

Tenho 53 e Santa Cruz completa 63 anos. Os dez anos de nossa diferença etária nunca pareceram tão distantes.

0 comentários:

Postar um comentário