11 de dezembro de 2016

ESPORRO BILÍNGUE

O paulista Rubem Salim, que fincou raízes em Pernambuco, defendeu cinco equipes pernambucanas: Santa Cruz, Náutico, Sport, América e Santo Amaro. Quando jogava pelo Santa Cruz apaixonou-se por Betinha, hoje odontóloga. Na época, Betinha integrava a equipe de basquete do Tricolor. Casaram-se e até hoje vivem uma maravilhosa união. Vale salientar que antes de jogar futebol, Salim fazia parte de um conjunto musical, mas terminou sendo seduzido pela bola. Como aconteceu com muitos jogadores de seu tempo, passou pelo futebol português. Vestiu a camisa do Porto, um dos três grandes de Portugal.

Houve um tempo em que a equipe tripeira, como é conhecido o Porto, foi dirigida por Tomi Docki, um irlandês de rosto avermelhado. Tomi era um dos jogadores da Seleção Irlandesa, quando esta veio ao Recife, em 1972, para participar da Minicopa ou Torneio Independência, em homenagem ao sesquicentenário da Independência do Brasil. Na chave sediada na capital pernambucana e em Natal, além dos irlandeses, figuravam Portugal, Chile, Irã e Equador. Portanto, Tomi chegou a jogar no Arruda, futuro palco das ‘invenções’ de Salim, com a bola no pé.

Sem falar patavina de português, o novo técnico portuense tratou de se garantir, levando um intérprete a tiracolo. Tratava-se de um irlandês, como ele, mas que dominava a língua de Camões. Os dois se entendiam, e muito bem.  As instruções eram dadas, portanto, em dois tempos. O técnico conversava com seu auxiliar, mostrando-lhe como determinado jogador deveria proceder, e o ajudante dava o recado ao destinatário.

Depois de um jogo em que Rubem Salim não teve uma boa atuação, o treinador aguardou a primeira oportunidade para procurar corrigi-lo, a fim de que na partida seguinte os erros não fossem repetidos. Transmitiu a advertência ao tradutor e este tratou de passar o bizu para Salim.

Tomi sempre instruía seu auxiliar aos gritos. Era a maneira não muito cortês de mandar sua mensagem, que chegava aos ouvidos dos jogadores, através do intérprete, como vimos. Naquele dia, o técnico precisava dizer alguma coisa a Salim. Falava com uma certa agitação, na voz e nos gestos. O tradutor escutava e dirigia-se ao jogador, em português bem claro, fazendo chegar aos seus ouvidos o que acabava de escutar. Cumpria sua missão ao pé da letra, na base do berro e da gesticulação, pois era assim que Tomi Docki a ele se dirigia, chamando a atenção até de quem estava longe. Salim não gostou:

“Vamos devagar, amigo. Não precisa esse carnaval todo, venha com mais calma. É só explicar calmamente o que o homem está dizendo, que eu entendo. Já levei um esporro em inglês sem entender nada e você agora me dá outro em português? Que o técnico grite, tudo bem, mas de você eu não aceito grito não”.


O intérprete tomou um susto, talvez por não esperar tamanha ousadia, mas abrandou o tom da voz e passou a falar baixinho. Como Salim queria.

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